Neobanks no Brasil: a revolução da inclusão financeira e o desafio da inadimplência
A ascensão dos bancos digitais transformou o mercado financeiro brasileiro nos últimos anos. Um levantamento recente da Equifax BoaVista, que analisou mais de 165 milhões de CPFs entre 2021 e 2025, revela que os neobanks se consolidaram como a principal porta de entrada ao crédito no país.
No entanto, o crescimento dessa nova fonte de crédito trouxe um efeito colateral preocupante: a explosão das taxas de inadimplência.
Neste artigo, detalhamos o panorama atual do crédito digital no Brasil, as mudanças no perfil dos consumidores e os desafios que as instituições financeiras enfrentarão nos próximos anos.
Destaques do Estudo
- Fatia de Mercado: o saldo de crédito ativo dos Neobanks saltou de 11,8% do mercado em 2021 para 31,8% em 2025.
- Exclusividade: em 2025, os bancos digitais passaram a atender de forma exclusiva 47,1% das pessoas com cartão de crédito ativo e 51,8% das com empréstimo pessoal.
- Inclusão: 41,4% dos cartões de crédito emitidos por Neobanks em 2025 foram o primeiro cartão da vida do consumidor.
- Risco: o índice de inadimplentes em cartões de crédito cresceu 163% nos bancos digitais no período analisado.
A explosão do crédito digital e a inclusão financeira
Embora os bancos tradicionais ainda concentrem o maior volume de saldo financeiro, o ritmo de expansão dos neobanks impressiona. Entre 2021 e 2025, o saldo de crédito ativo gerido por essas instituições (cartões e empréstimos) avançou mais de 360%, enquanto nos bancos tradicionais o crescimento foi de apenas 35,7%.
Essa expansão foi impulsionada pelo forte papel de inclusão financeira dos bancos digitais. Para se ter uma ideia, enquanto 41,4% dos cartões emitidos pelos neobanks em 2025 representaram o primeiro cartão do consumidor, nos bancos tradicionais esse percentual foi de apenas 4,9%.
Eduardo Cavalheiro, Head de Marketing da Acordo Certo, destaca a importância desse movimento: "Levar crédito a milhões de pessoas que nunca tiveram acesso a um cartão ou empréstimo é um avanço inegável [...] O próximo passo é garantir que essa inclusão venha acompanhada de educação financeira".
O preço da expansão: o salto da inadimplência
A democratização do crédito ocorreu em um cenário de juros altos e endividamento das famílias, refletindo diretamente no risco financeiro das operações. A rápida inserção de populações sem histórico bancário gerou um aumento desproporcional da inadimplência.
Entre 2021 e 2025, o percentual de clientes inadimplentes no cartão de crédito em neobanks saltou de 7,71% para 20,31%. Nos bancos tradicionais, no mesmo período, o índice caiu levemente, passando de 14,57% para 13,6%. No empréstimo pessoal, a taxa de inadimplentes nos bancos digitais cresceu 113% (de 6,55% para 13,93%).
Ulisses Monteiro Ruiz de Gamboa, economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), alerta para a necessidade de evolução tecnológica na avaliação de risco: "Os resultados também sugerem necessidade de aprimoramento dos métodos de score de crédito por parte dos neobanks, que atualmente focam no comportamento dos clientes dentro da própria instituição". Ele reforça que a avaliação deve integrar dados de birôs de crédito mais abrangentes.
Quem é o Novo Cliente dos Bancos Digitais?
O estudo mapeou duas mudanças demográficas essenciais na base de clientes com crédito ativo nos neobanks:
1.Envelhecimento do público: o mercado observou o
envelhecimento dos usuários. Nos cartões de crédito, os consumidores
entre 36 e 50 anos passaram a representar a maior fatia em 2025.
Esse movimento acompanha a transição demográfica brasileira e a
prática comum de pessoas mais velhas emprestarem seus nomes para
jovens sem acesso a crédito.
2. Acesso pelas classes de menor
renda: o percentual de pessoas com renda de até um salário mínimo
que obtiveram cartão de crédito saltou de cerca de 6% (2021) para
20,5% (2025). Por outro lado, a vulnerabilidade desse grupo refletiu
na inadimplência, com a taxa de devedores nessa faixa de renda
disparando quase 23,5 pontos percentuais, atingindo cerca de 33%.
Bancos Tradicionais vs. Digitais: a batalha pela confiança
Apesar do boom digital, uma pesquisa da Acordo Certo revela que a confiança ainda é um pilar forte das instituições clássicas. Cerca de 61,15% dos brasileiros ainda consideram os bancos tradicionais como sua principal instituição financeira. Além disso:
66,9% acreditam que os bancos tradicionais são os mais
preparados para lidar com crises econômicas.
71,5% afirmam que
não trocariam seu banco tradicional por um banco digital.
O único fator expressivo capaz de motivar a migração de um usuário tradicional para um neobank é o acesso ao maior volume de crédito (46,9%), seguido por taxas de juros menores (25,6%).
O futuro do crédito: o que esperar?
O elevado grau de concorrência imposto pelos neobanks beneficia os consumidores ao reduzir taxas e aumentar o poder de barganha. Porém, com os bancos digitais atendendo a maioria da população e absorvendo o maior risco, o futuro exigirá cautela.
"A dinâmica deverá exigir modelos de avaliação capazes de integrar dados referentes a todas as transações financeiras e não financeiras dos tomadores de crédito," conclui o economista Ulisses Gamboa.
Os neobanks já provaram sua capacidade de adquirir clientes e democratizar o acesso financeiro. Agora, o verdadeiro desafio da inovação será construir estratégias de retenção duradouras e modelos de risco sofisticados para garantir a longevidade e sustentabilidade dessas operações.
Quer conferir o estudo completo e acessar todos os resultados?