Quando a fraude atravessa áreas, a prevenção também precisa atravessar
O Brasil é um dos top países no mundo em volume de ataques de fraude. https://valorinveste.globo.com/mercados/brasil-e-politica/noticia/2026/04/29/brasil-e-o-3o-pais-com-maior-numero-de-golpes-a-contas-bancarias-saiba-como-se-proteger.ghtml).
Ao mesmo tempo, a criatividade e a capacidade de adaptação dos fraudadores impulsionam a evolução das próprias barreiras de segurança. O Pix é um exemplo disso: à medida em que novas tecnologias transformam a forma como movimentamos dinheiro, também evoluem as estratégias para protegê-las.
Esse cenário deixa uma provocação importante para as empresas: se o fraudador não está limitado a uma única etapa da jornada, por que a prevenção deveria estar?
Essa foi uma das principais provocações que atravessaram as discussões do Fraud Day Executive Summit 2026, realizado pela Equifax BoaVista no último 17 de setembro. Mais do que discutir novas tecnologias ou novos tipos de fraude, os debates colocaram uma questão prática para as empresas: como diferentes áreas podem trabalhar juntas para enxergar o risco antes que ele se transforme em prejuízo?
A fraude não cabe mais em uma única área
Se cada área enxergar apenas o seu pedaço, parte do contexto pode ficar invisível. Um ataque pode começar em um ponto não considerado na segurança da jornada, como em uma camada de segurança da informação, por exemplo, e passar por uma falha de identificação, encontrar uma oportunidade em uma jornada de crédito e terminar em uma transação fraudulenta.
Um caso real ajuda a tornar essa discussão mais concreta: em um grande varejista, uma operação que recebia cerca de 1 milhão de acessos e 25 mil compras por dia identificou que parte relevante daquele tráfego não vinha de consumidores reais. A investigação revelou a presença de bots e comportamentos associados a uma tentativa de exploração do estoque.
O problema, portanto, não estava apenas na etapa de pagamento. Foi preciso aproximar a segurança da informação e prevenção à fraude para entender o comportamento, identificar o ataque e atuar sobre ele. Quando as áreas trabalham separadas, cada uma pode enxergar apenas um sinal.
Quando trabalham juntas, os sinais começam a formar um contexto.
Foi justamente essa integração que mostrou sua importância em diferentes momentos do evento: a aproximação entre Cibersegurança, Prevenção à Fraude, Crédito, Risco, Compliance e outras áreas que, embora tenham responsabilidades diferentes, estão olhando para um mesmo problema.
O fraudador também evoluiu
A tecnologia ampliou as possibilidades para empresas e consumidores, mas também criou novas oportunidades para quem comete fraude.
O material discutido no Fraud Day mostra, por exemplo, como a fraude sintética pode combinar dados reais e fictícios para construir uma identidade que parece legítima. Essa identidade pode passar por etapas de cultivo, construir histórico e, posteriormente, acessar limites ou produtos de crédito.
É uma mudança importante de perspectiva. O fraudador não precisa, necessariamente, parecer um fraudador desde o primeiro contato. Ele pode, durante determinado período, se comportar como um bom cliente. É por isso que olhar apenas para dados isolados pode não ser suficiente. Com Open Finance, Pix, inteligência artificial e jornadas cada vez mais digitais, diferentes informações e comportamentos passam a fazer parte da análise. Um histórico aparentemente positivo, por exemplo, pode carregar riscos que só aparecem quando combinado a outros sinais.
"O fraudador brasileiro mudou de tática: hoje ele cultiva históricos falsos para agir como 'bom cliente' e atravessar todo o ecossistema. Se a fraude não cabe mais em um único ponto da jornada, nossa prevenção também não pode ficar isolada em silos — combater o crime digital exige a conexão real entre Cibersegurança, Crédito, Risco e Antifraude."
Márcio Souza, Superintendente de Operações AntiFraude da Equifax BoaVista
Mais camadas, menos pontos cegos
A resposta para esse cenário não está em encontrar uma única tecnologia capaz de identificar todas as fraudes. Está em construir uma estratégia que combine diferentes camadas de proteção, de acordo com o risco e com o momento da jornada.
Na prática, isso pode significar combinar análise de comportamento de navegação, identificação do dispositivo, validação documental, biometria, inteligência artificial e, quando necessário, análise humana. A própria jornada de prevenção pode ser configurada com diferentes etapas, desde a validação da compra até revisões automatizadas ou manuais e existe uma razão para isso. Nem toda decisão é simples o suficiente para ser tomada por uma única regra ou por um único modelo.
Por exemplo, a análise pode começar de forma automatizada e, nos casos inconclusivos, avançar para outras camadas de investigação. A mesa de análise humana também pode alimentar o aprendizado dos modelos, criando um ciclo de aprimoramento da prevenção. Tecnologia e pessoas não competem nessa jornada. Elas se complementam.
"Em tempos de Pix, Open Finance e Inteligência Artificial, a tecnologia sozinha não é uma bala de prata. O verdadeiro diferencial no combate aos golpes no Brasil está na inteligência coletiva: quando conectamos os sinais do mundo digital e físico entre diferentes áreas, eliminamos pontos cegos, reduzimos perdas e protegemos quem realmente importa — o cliente legítimo."
Márcio Souza, Superintendente de Operações AntiFraude da Equifax BoaVistar
O próximo passo é conectar os sinais
Se a fraude consegue atravessar diferentes áreas, a prevenção também precisa fazer isso. Na prática, significa aproximar times que muitas vezes trabalham com indicadores, ferramentas e objetivos diferentes. Segurança pode trazer sinais de rede e comportamento digital. Crédito pode identificar padrões anômalos em uma carteira. Prevenção à fraude pode conectar esses sinais a comportamentos suspeitos. Compliance pode ampliar a visão sobre o risco.
O material discutido no evento aponta justamente para essa integração: cruzar sinais de cibersegurança com dados de identidade e fraude, analisar conexões entre diferentes dispositivos e CPFs e incorporar informações de diferentes contextos para construir uma visão mais completa do risco.
O resultado esperado não é apenas bloquear mais fraudes. É reduzir pontos cegos, evitar perdas, diminuir custos e proteger também os clientes legítimos de jornadas desnecessariamente complexas.
Afinal, uma estratégia antifraude precisa encontrar um equilíbrio: ser rigorosa com o risco sem transformar segurança em barreira para quem está fazendo uma operação legítima.
"A fraude digital no Brasil se tornou fragmentada e invisível aos olhos de quem olha apenas para o seu próprio quadrado. A resposta precisa ser igualmente integrada: quando somamos forças entre Cyber, Antifraude e Compliance, transformamos dados isolados em uma verdadeira barreira de proteção."
Márcio Souza, Superintendente de Operações AntiFraude da Equifax BoaVista
A fraude é fragmentada. A resposta não pode ser.
Talvez essa seja uma das principais conclusões que ficam depois do Fraud Day. Não existe mais uma única porta de entrada para a fraude e, consequentemente, não deveria existir uma única área responsável por enxergá-la. Em um ambiente em que os ataques se tornam mais sofisticados e circulam por diferentes camadas da jornada, compartilhar informações, conectar áreas e combinar tecnologias passa a ser parte essencial da prevenção.
Porque, no fim, o objetivo é comum: fazer com que cada sinal relevante seja visto antes que se transforme em uma perda e quanto mais conectadas estiverem as áreas responsáveis por identificar esses sinais, maior é a capacidade de transformar informação em proteção.